sexta-feira, 13 de julho de 2018

"Cuidado com o que desejares... (ou: "Uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida")" (Por Diego T. Hahn)


Buenas, pedindo antes de mais nada licença para os fiéis 5 (4??) leitores do "De Letra", fazemos agora um breve intervalo na trama do nosso anti-herói-recepcionista (Coxinha? Mortadela?) Marco (pô, além do mais, em plena Copa, Diegão? Logo tu que é dos fut!?... onde estão ao menos então coisas como "Pra não dizer que não falei da Copa", por exemplo?? - bem, quem quiser sacar a ideia desse hipotético questionamento de um mais hipotético ainda fã do blog, basta um click no link a seguir para voltar 4 anos numa divertida viagem no tempo - embora certamente algum tanto ali se perca hoje em função de referências a situações melhor saboreadas com o frescor do momento de então - : http://deletradj.blogspot.com/2014/07/), mas esta pausa - com o perdão pela involuntária rima rica a seguir - é por uma suposta "boa causa" (com a possível pretensão, bem sabemos, que tal intervenção - ôpa, olha aí desde já, embora também involuntário, mais um daqueles trocadilhos que tanto amamos aqui - possa denotar... uaréva!), visto que o atual momento do nosso país tropical parece tornar quase imperativo este texto, digamos que mais "informativo" do que "literário" (embora talvez seja também tão pretensioso arriscar-se com o primeiro quanto com o segundo...)

Quanto à frase (a primeira, fora do parêntese) que dá título a esta humilde crônica, bem, a primeira vez que ouvi ela foi da boca de uma amiga há muitos e muitos anos atrás e - clichês que justificam o nome - lembro que ela imediatamente me marcou, e  fato é que inevitavelmente desde então lembro da mesma sempre diante de situações nas quais ou eu ou algum outro ser - supostamente pensante e sem dúvida bastante desejante - deseja muito ardentemente uma determinada coisa (ou pessoa), sem considerar a variável da avalanche invisível que pode estar escondida, aguardando simplesmente pelo aparentemente inocente lançamento, como numa brincadeira, da bolinha de neve em direção ao tal objeto de desejo inicial, para começar sua avassaladora e incontrolável carreira montanha abaixo...

Curiosamente, pois, dia desses - era um daqueles dias em meio à greve dos caminhoneiros - deslocávamos eu e um camarada, Pablito, para uma partida de padel pela Avenida Medianeira em Santa Maria City, ele no volante, eu na carona, quando fomos interrompidos por uma passeata, supostamente contra a corrupção, e a favor de um determinado candidato - e, de lambuja, da tal da intervenção militar - , aquela coisa toda, você sabe...

Pois Pablo ficou furibundo - estávamos já atrasados para o jogo - , como nunca imaginei que o cara pudesse ficar, pelo fato de o "interrompidos" que usei acima se referir a essa galera da passeata - bandeirinhas do Brasil sendo balançadas pela janela dos carros - simplesmente ignorar o sinal vermelho para eles e fazer o contorno na Avenida, conturbando completamente o trânsito na região e arriscando inclusive acarretar algum grave acidente!...

Pablo vociferava todos os tipos de impropérios contra os "protestantes" - isto é, protestava contra a falta de respeito às regras dos protestantes, que protestavam contra a falta de respeito às regras em geral no país... tá entendendo?...
Eu? Putz, confesso que achei engraçado e só ri da surrealidade da situação - quanto ao jogo, nem estava na mesma pilha que ele naquele dia, estava indo só "na parceria" (embora, demonstrando-me inesperadamente inspirado ao entrar em quadra, acabasse destruindo com a partida!...) - , pois era realmente bizarro todo aquele espetáculo, que acabou me fazendo por tabela lembrar de uma matéria (da revista Super Interessante - ou Super, para os íntimos; você sabe, a irmã mais velha e mais séria da Mundo Bizarro... publicações coxinhas? Mortadelas?) que lera há algum tempo e, despertando minha curiosidade, resolver procurá-la na sequência para dar uma nova conferida em alguns pontos da mesma...

Pois bem... tendo-o feito dia desses - isto é, relido a tal matéria (na verdade, é uma edição inteira especial, intitulada "21 mitos sobre a Ditadura Militar") - , me ocorreu de reproduzir aqui então algumas considerações que lá reencontrei e que acho deveras pertinentes (como dito antes, dado o nosso momento tupiniquim de afirmações a altos brados sem maiores reflexões e aprofundamentos em dados e estatísticas e História com agá maiúsculo...).
Sei que alguém pode protestar, alegando se tratar de "conspirações da grande mídia", que há interesses por trás etc, mas, ainda que aqui esteja um cara que também curte uma boa teoria da conspiração e não confie 100% em NENHUMA informação que recebo - sinto muito, sou desconfiado mesmo - mas digamos que confio em torno de 20% em "notícias de internet" (e próximo de 0% em notícias de facebooks e uáts)... já em publicações "de papel", dessas mais tradicionais - que inegavelmente têm suas "tendências", mas têm também suas responsabilidades e podem ser rebatidas formalmente e penalizadas até mesmo - minha confiança aumenta um pouco - procurando sempre filtrar, mas, enfim, considerando estas as informações mais próximas da realidade (ainda mais confrontando-se com aquelas do mundo virtual e informal, digamos assim...).

E aproveito aqui para embasar esse meu apego à "bibliografia" tradicional em detrimento às novas mídias - na linha "dos males o menor" - citando o filósofo - pra dar uma moral no texto, né!? - Pondé (Coxinha? Mortadela?...), o qual assisti há poucos dias na capitarr dizer que a revolução digital na área do jornalismo ou pseudo-jornalismo não tem só ganhos, como muitos veem, e, como muitos começam a perceber, entre outras questões, a das famigeradas fake news é uma praga difícil de se combater, especialmente nas mídias sociais, onde qualquer um pode dizer o que bem entender (a parte boa seria a liberdade, não? A famosa e tão incensada e tão preciosa liberdade de expressão, um grande poder... mas, como diria tio Ben - só para dar uma outra moral extra aqui nesta humilde crônica, procurando ainda pouco a pouco tecer a teia na qual gostaria de enredar o caro leitor - , grandes poderes, você sabe, trazem grandes responsabilidades...)... Pondé menciona também exatamente que, para o bem, para o mal, os meios tradicionais de comunicação, com seus gatekeepers, têm suas "orientações", mas não podem simplesmente transcender a realidade, criando universos paralelos, como exatamente os criados nas redes sociais da vida...

Pois bem. A matéria é mesmo bastante interessante (tentei fugir do pleonástico adjetivo, mas não achei outro - bom, ao menos tirei o super, né) e a verdade é que pondera tanto para um lado como para outro (até porque nada é totalmente bom nem totalmente mau, não é mesmo? - embora, exatamente por isso, possivelmente irritando e agradando, alternadamente, mortadelas e coxinhas), buscando desmistificar certas "verdades" sobre o período de governo militar no Brasil, questionando os mitos em tópicos como "Jango era habilidoso como líder", "O Brasil ia virar uma nova Cuba", O golpe foi obra dos quartéis", "O golpe foi criado pelos EUA", "A luta armada era democrata", "Estudantes sempre se opuseram", "O Milagre foi uma mentira", "Os generais eram pró-Mercado", entre outros...

Vamos nos ater aqui, contudo, a dois, que são dos mais acionados pelos defensores de uma nova intervenção militar no país: "Na época, não tinha corrupção" e "As cidades não eram violentas", abordando dois males de proporções atualmente enormes que atormentam todos nós, cidadãos "de bem" (inclusive aqueles que furam sinal vermelho na cara dura, atrapalhando todo tráfego e arriscando aumentar os números da violência no trânsito...).

No primeiro desses dois tópicos, a matéria enfatiza que, embora os presidentes da época aparentemente tenham mesmo procurado manter a linha no sentido de não aproveitar-se do erário público ("Os únicos patrimônios de Castelo Branco eram um Aero Willis preto e um imóvel em Ipanema. Médici desviou o traçado de uma estrada para que ela não valorizasse suas terras. Quando Geisel assumiu a presidência da Petrobras, sua mulher quis um apartamento novo. O general disse não. 'Se comprar esse apartamento, vão logo dizer que estou roubando' "), o que vinha abaixo deles se esbaldava igualmente como o faz a catrefa de hoje em dia ("Assim que assumiu a presidência, Castelo prometeu uma grande devassa. Não conseguiu. 'O problema mais grave do Brasil não é a subversão; é a corrupção, muito mais difícil de caracterizar, punir e erradicar', disse meses depois de criar a Comissão Geral de Investigações (CGI), que investigava acusados de subversão e de corrupção. Opositores perderam os direitos políticos; corruptos se adaptaram")... De 1968 a 1973, conforme a matéria, essa Comissão produziu 1.153 processos, tendo mais de mil desses sido arquivados, e o principal problema não era apenas a falta de eficiência da mesma, mas também sua "seletividade" (qualquer semelhança com a realidade atual obviamente não é mera coincidência...). "Aos amigos, o silêncio. Foram arquivadas sem investigação denúncias contra os então governadores José Sarney (MA) e Antônio Carlos Magalhães (BA). Já aos inimigos, a lei. No processo contra Brizola, a CGI escrutinou suas declarações de bens desde 1959, quebrou seu sigilo bancário, verificou seus imóveis - e não encontrou nada de errado. Ou seja, quanto menos democrático um regime, mais o combate à corrupção se confunde com perseguição".

Para não alongarmos também demasiadamente nessa questão (poderíamos mencionar ainda a da corrupção de uma rede de colaboradores da repressão, como "juízes que aceitavam processos absurdos, confissões desmentidas e perícias mentirosas", e médicos que dispunham-se a fraudar autópsias e autos de corpos de delito) mais duas interessantes situações abordadas nesse sentido: uma, a do fim da esquerda armada a uma certa altura, o que não justificava mais a existência dos antigos agentes da repressão, que precisavam de uma nova razão de ser, tendo então muitos ido para a atuação na "segurança particular", e outros para o contrabando de mercadorias, como o capitão Guimarães - um dos mais notórios torturadores do DOI-Codi do Rio de Janeiro - , que teve suas atividades ilícitas descobertas pelas autoridades cariocas no final de 1973, com a acusação englobando no esquema 14 militares, 8 polícias civis e alguns comerciantes. Esses réus chegaram a ser presos, porém o processo foi anulado. O motivo? Acredite: os acusados alegaram ter sido torturados... (acho que foi por isso que me veio à cabeça essa matéria enquanto eu via desfilar aqueles protestantes contra a corrupção que furavam o sinal vermelho e pediam intervenção militar...) De qualquer maneira, o capitão Guimarães era brasileiro e não desistia nunca: acabou a luta armada? Vamos para o contrabando! Acabou o contrabando? Ué, jogo do bicho, mermão!...
Sim, quando você se empolgar ao ver a Vila Isabel entrando na Sapucaí no próximo carnaval, lembre-se que ela foi a escola adotada pelo bicheiro que, com suas antigas táticas de espionagem e repressão, logo transformou o bicho numa verdadeira organização militar...

A outra situação - não menos irônica - é a do disparo nos lucros das grandes (até então médio ou pequenas) empreiterias, como Andrade Gutierrez e Odebrecht, após mais e mais contratos passarem a surgir com o governo da época - as obras da Odebrecht, por exemplo, talvez principal símbolo do atual momento de tentativa de combate a essa prática das trocas de favores entre público e privado, antes do governo militar mal ultrapassavam as fronteiras da Bahia, mas, com os contratos que passaram a se suceder a partir do governo Costa e Silva, começou a dar saltos gigantescos e, de décima-nona empreiteira de maior faturamento no país em 1971, subiu ao pódio, passando para a terceira posição, em 1973. Nada mal, não? (Não, acho que foi POR ISSO que lembrei da matéria enquanto olhava para os caras que furavam o sinal vermelho criando aquele caos no trânsito: eles protestavam contra as sacanagens envolvendo políticos e a Odebrecht pedindo intervenção militar... sendo que a intervenção militar fora quem criara a "maligna" Odebrecht. Irônico, não?).

Passando ao outro tópico, o da suposta não-violência na época do Regime, a matéria diz que até o início dos anos 1960, a taxa de homicídios no país girava em torno de 5 para cada 100 mil habitantes - um número considerado razoável, ainda "sob controle". A partir da década de 60 então a taxa começou a crescer, antes mesmo da ditadura, e agravando-se durante o regime militar devido aos grupos de extermínio instalados dentro do próprio Estado.

No caso, o que acontecia era que até ali, início dos 60, a maioria dos homicídios acontecia dentro de casa, graças a crimes passionais, desentendimentos entre parentes e conhecidos etc. Até então, o homicida não era considerado o bandido - não, ele era a mosquinha que sobrevoa o cocô do cavalo do bandido. Algo inaceitável, inconcebível. 

"Mas o homicídio ganhou um novo significado na São Paulo do fim dos anos 1960. 'A figura do bandido, em oposição à do trabalhador, tornou-se ameaçadora a ponto do seu extermínio ser desejado ou tolerado', afirma Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP. O homicídio tornou-se um método de limpeza e controle social, e o homicida, um herói em defesa da comunidade."

Pronto. Estava aberta a porteira.
No final dos 60 então, sob o comando do delegado da Polícia Civil Sérgio Fleury, formara-se o Esquadrão da Morte, primeiro grupo paulista com o explícito propósito do extermínio de bandidos comuns. Em 1970, de acordo com pesquisa da Veja (Mortadela?...), 60% dos paulistas se diziam favoráveis às ações do grupo. 
E, na esteira desses grupos, que tinham a parceria da PM (que por volta de 1975 já não tinha a guerrilha armada para combater e passou a priorizar o patrulhamento ostensivo das periferias - usando, claro, como principal ferramenta de controle territorial a morte), surgiram igualmente os justiceiros privados, que tinham a chancela de comerciantes e da própria polícia, e começaram também eles sua matança em bairros periféricos.

Lembra da avalanche? Pois, segue a matéria, "o extermínio teve um efeito colateral imprevisto - aumentou a criminalidade nas periferias. Isso por dois motivos. Primeiro, o homicídio inicia uma cadeia de vinganças. Numa pesquisa de 2012, Manso descobriu que uma rixa iniciada em 1993 no Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo, levou a 156 mortos em cinco anos. 
Outro fator é que a imagem de corpos largados nas ruas, enterros de amigos e parentes e conversas sobre tiroteios tornam o homicídio um meio possível para resolver disputas ou reagir a ameaças. 'Conflitos banais, como o galanteio à namorada de terceiros, brigas em bar ou olhares enviesados podem ser suficientes para despertar o medo da morte', afirma Manso. E quem teme morrer se previne matando antes.
O auge da violência urbana só viria 14 anos depois do fim da ditadura. Mas isso não fez da ditadura uma época de paz nas ruas. Foi um período de violência urbana crescente. Acima de tudo, foi a incubação de uma geração de jovens prontos para matar uns aos outros."

O que me fez lembrar também uma reflexão de alguém (que, confesso, não me lembro quem era...) numa rádio dia desses (mas seria um coxinha ou mortadela esse cara, afinal?...) sobre a questão da indiferença - ou, pior, o incentivo - com as mortes e/ou chacinas acontecidas em prisões, entre os próprios presos... o tradicional "ah, que se matem tudo lá dentro!" que a nossa classe média especialmente parece ter se acostumado a proferir, mecanicamente. Olha, eu, também, se fossem os poderosos do crime, os homicidas hediondos, e outras criaturas malignas, a serem as vítimas dessas matanças, provavelmente apoiaria esse processo - ainda que ele incorra de qualquer maneira naquele efeito colateral...

Mas, ok, vamos analisar, agora, racionalmente (segurando um pouquinho o automático "que se matem tudo lá dentro!"): as facções estão bem protegidas lá, certo? Os poderosos delas, os poderosos do crime, dificilmente serão atingidos lá, certo? Quem morrerá majoritariamente então serão os bandidinhos que não têm filiação, os solitários, os ladrões de galinha (que serão decapitados para servir de exemplo, pra não dedurar etc - e porque alguém tem que ilustrar o lance na capa do jornal, porra; fazer o quê??)... e a gente vai seguir indiferente ao aumento dessa matança, acreditando que os criminosos estão se acabando todos entre si lá dentro - quando na verdade eles estão se FORTALECENDO, ganhando a carta branca para matar, trucidar, ou seja, banalizando ainda mais o homicídio... o que refletirá do lado de fora e no comportamento que manterão quando também eles estiverem novamente aqui, entre nós, cidadão "de bem" (inclusive aqueles lá...) e supostamente pensantes... (lembre-se que até o início dos anos 60 o homicídio era um crime "inaceitável", e as taxas eram portanto baixíssimas... e atualmente, contraditoriamente, para muitos casos, baixamos o polegar como na Roma antiga e os esquadrões da morte - ainda que compostos também eles de hediondos criminosos (e ainda que algumas balas perdidas - ou não tão perdidas assim - deles também sobrem para a gente) - têm a nossa implícita anuência (ou mesmo explícita reverência; vá entender)... 

Mas não nos desviemos tanto, fecha parêntese dessa reflexão indireta, e voltemos ao nosso tema central.

Quanto a ele, e àquela galera lá do sinal vermelho, refletia também eu (Coxinha? Mortadela?) dia desses, quando, curiosamente, exatamente no dia seguinte li cronista da ZH (E aí?...) magicamente plagiando minha reflexão interna: seria o brasileiro o único povo do mundo a clamar por intervenção militar, por restrição da sua própria liberdade???... Caramba, somos estranhos, somos "especiais" (para o bem e para o mal), sem dúvida... mas, tanto assim??? 

 Pois com certeza não é o único país do planeta com corruptos rastejando pelos meandros do seu meio político-empresarial (há outros com um mal parelho, se não pior) e não se vê uma reação do gênero em nenhum outro lugar do mundo... por que esse apego às forças armadas por aqui então?
Isso daria uma boa pesquisa - cujos resultados talvez acabassem tendo relação com aquela outra, que mencionou recentemente que o brasileiro é o segundo pior povo no mundo no quesito capacidade de compreender o que acontece à sua volta (https://www.terra.com.br/noticias/brasil/brasil-e-2-pais-com-pior-nocao-da-propria-realidade,17c202f652c846ec7d486e0154bbb492n3u6n39f.html )

No fim das contas, creio que talvez devêssemos era estar fazendo passeata (embora nem por essa eu fosse furar sinal vermelho no meio da Avenida Medianeira na hora do rush!) e protestos contra a Lei do Veneno (que, entre outras questões no mínimo dúbias, tira do Ministério da Saúde e da Anvisa a prerrogativa de aprovar ou não o uso de um determinado novo agrotóxico, deixando isso a cargo unicamente do Ministério da Agricultura...), que está por ser aprovada, e que talvez cause mais danos diretos (ao menos à saúde) de nossos filhos e netos - pensemos neles, pois pelo visto os nossos cérebros já foram envenenados mesmo, não é mesmo!?... - do que a questão da intervenção para supostamente combater a corrupção (e até porque corruptos não deixarão de ser corruptos porque estamos fazendo passeata, certo!? Já uma pressãozinha no seu deputado/malvado favorito, seja lá qual for o partido dele, ainda mais em ano eleitoral, talvez, isso sim, surta efeito...)

Para concluir, fica primeiramente uma interessante mensagem, de fundo paradoxal, do escritor uruguaio Galeano (não querendo expor veias de nada nem de ninguém, por favor! Eu sei que o cara era um hermano mortadela, eu sei, mas esse pensamento é legal - assim como as músicas do Chico seguem legais, cara!...) "Somos o que fazemos para mudar o que somos" - ainda que correndo o risco de perder um pouco da poesia (e da graça do paradoxo) da frase, eu acrescentaria aqui que para mudar o que pensamos também (assim sendo, prometo tentar colocar em prática essa ideia se você o fizer também: isto é, vamos dar uma pensada - eu, começando pelo que escrevi acima... vai saber, né!? Como disse não confio 100% em nenhuma informação que recebo, nem (ou, muito menos) de mim mesmo - e você, enfim, no que acha que tem que repensar... trato feito?... Ah, sim: e cuidado com o que desejares, pois, para o bem ou para o mal, podes mesmo acabar conseguindo - para quem por ventura não sabe, é a conclusão do pensamento do título)

Já a outra parte dele, aquela entre parêntese, cita nada mais nada menos do que Sócrates (mazááááá! Que tal? Se queríamos uns enxertos pra alavancar o moral aqui, esta é pra acabar com chave de ouro o festival de chupação de pensamentos!!), mas, como há suspeitas tanto de coxismo (ele era de família de elite na velha Grécia...) como de mortadelismo (curintiano, né - alguém pode confundir com o Doutor, irmão do Raí... "ganharam a Arena do Lula, e tal... não, não, não: certamente mortadela!") também do velho Sóc, deixo de lambuja então essas outras reflexões (de outros dois filósofos: um, estadunidense, ou seja, automaticamente coxinha, e outro, iluminista francês, portanto obviamente mortadela - pra não dar briga; pronto) que casam entre si (embora talvez não com a nossa adorada certeza das nossas categóricas certezas!):

Voltaire: "A dúvida não é agradável, mas a certeza é absurda".

Eric Hoffer: O início do pensamento está no desacordo - não apenas com os outros, mas também conosco."




sexta-feira, 22 de junho de 2018

"Diário de um Recepcionista de Hotel Canastrão - Parte 8" (Por Diego T. Hahn)



A questão era que, a um certo ponto, eu realmente não tinha mais estímulo ali. Eu dizia que, com um mínimo de treino, um macaco poderia fazer perfeitamente aquele trabalho que eu fazia... E às vezes – lá vinha outra daquelas minhas viagens – me pegava rindo enquanto imprimia algum relatório ou carimbava algum papel e ficava imaginando mesmo um simpático símio – de terno e gravata, claro, o que dava mais graça ainda à cena – realmente pulando ali de um lado para o outro sobre o balcão da recepção, e no fim do mês feliz da vida ao receber seu cacho de bananas-salário.

Mas não eu, eu queria mais - se fosse para fazer o trabalho de um macaco, eu queria ser era como a Chita; melhor, claro, se fosse o Tarzan!, mas, enfim, eu queria ser um astro de cinema, ou algo assim, caramba: viver a vida sobre as ondas, você sabe; o meu destino é ser star!...

E, como o tempo ia passando e o meu destino parecia mesmo era não de star e sim estar ali, e aquele tal “sucesso” não chegava nunca, eu começava a me deprimir.
E, deprimido, claro, protagonizava o clássico: buscava ajuda no álcool...

Brincadeira! Quer dizer, o trago rolava solto na recepção, é verdade, especialmente de madrugada, mas era por pura zoação mesmo... uísque, vinho, cerveja... eu tinha um colega, Jaime por exemplo, que era mesmo um alcoólatra – nunca o vi trabalhar sóbrio naqueles tempos lá... 

Antes de queimar o filme do Jaime, porém, devo mencionar que teve uma certa época, na qual estava de férias da faculdade, que estabilizei por um tempo no turno da noite e deixei um outro colega de turnante. Pois nesse período trabalhávamos sempre eu e outro recepcionista e dois mensageiros. Trabalhávamos bem, talvez fôssemos os melhores que o hotel tinha naquela época nas nossas funções, mas o caso é que éramos também os mais fanfarrões e quando não havia movimento na área começávamos a zoação descerebrada, papo vai papo vem naquelas noites, fomos criando um vínculo de patifaria, e logo estávamos saindo os quatro juntos todas as noites também após o serviço. 

Éramos todos solteiros na época – um deles era o Jorge, o especialista em manobrar carros na garagem e bisturis em cirurgias cardíacas – e as noites iam longas e chegávamos trôpegos nas respectivas casas quando o sol já raiava no horizonte. Obviamente, com aquela rotina cada vez mais frequente, começamos a trabalhar com as caras amassadas, olheiras profundas, voz cavernosa... estávamos mais lentos também – brincávamos que aquilo podia ser um problema especialmente para os pacientes do Jorge – ... às vezes demorávamos a entender o que os hóspedes falavam, os mensageiros iam buscar o veículo do Seu Megane e voltavam com um para o Seu Sandero, que não estava ali (bem, ao menos eles ainda acertavam a "família", não é mesmo?)...

O que aconteceu então foi que o gerente da época, Alex, percebeu isso e logo tratou de desmanchar aquele nosso grupo: mudou os turnos de um, depois os de outro, e assim por diante, até cortar quase totalmente nossa comunicação mais direta e nossas aventuras noturnas começarem a escassear. 

Grande filho da puta aquele Alex por estragar aquele nosso animado bando!, mas, devo admitir, um filho da puta profissionalmente preciso, pois certamente salvou o bom funcionamento da recepção do hotel – e, bem, talvez também um filho da puta bom amigo, pode ter salvado igualmente nossas vidas, que, naquele ritmo de até então, pareciam destrambelhadamente começar a ir ladeira abaixo (embora nossa euforia pela diversão intensa e as gorjas, que por algum estranho motivo haviam se tornado mais frequentes naqueles tempos de vida loca, não nos deixassem perceber isso)...

Mas, fecha parêntese (para não nos queimarmos mais ainda aqui neste trecho - embora ainda haverá tempo e espaço para isso na sequência da nossa história...), e voltando ao Jaime (que pelo seu "profissionalismo" com o copo acabava fazendo a gente parecer criancinha da pré-escola do trago): Jaime costumava fazer a madrugada, mas às vezes quebrava um galho também em algum turno diurno. Era, porém, um daqueles caras que disfarçam bem a embriaguez; você a princípio não diria que ele está bebaço se não analisasse mais a fundo ou o conhecesse um pouco melhor.

Pois eu já o conhecia, após algumas noites trabalhadas junto. E quando começava a digitar algo no computador no turno da noite, logo percebia um copo repousando no balcão da recepção, bem ao meu lado; era Jaime me oferecendo – para não dizer me impondo - silenciosamente um drinque, o qual, para não fazer a desfeita, eu costumava acabar aceitando. E assim transcorríamos aquelas jornadas, fazendo pouco, quase nada, bebendo e trocando ideias sobre as coisas mais estapafúrdias possíveis. Aquilo era engraçado: com os hóspedes eu debatia política, com algum mensageiro eu falava de negócios, com outro de mulheres, todos davam pitacos sobre futebol, mas o Jaime, cara, o Jaime era difícil descrevê-lo.

 Porque ele não falava literalmente nada com nada – tanto é verdade que, daqueles tempos que convivemos por ali, não consigo lembrar de uma única frase sua com um mínimo de coerência com a realidade e a língua portuguesa, ou qualquer língua do mundo (por mais que essa quase total desconexão com o universo pudesse vir a ser engraçada para o leitor) que pudesse usar como exemplo aqui (e, você sabe, se é pra mentir/inventar coisas, paremo por aqui!...). De alguma forma, ele parecia indiferente a tudo, indiferente mesmo à vida... ele era daqueles caras que falam somente o mínimo indispensável, de uma maneira lenta e blasé, com uma voz rouca quase nunca olhando para o interlocutor e sim para algum horizonte perdido, por mais que simpatizasse com a outra pessoa – o que tornava, por algum motivo, inacreditavelmente, também ele um tanto quanto simpático e mesmo carismático (de um carisma, digamos, quase folclórico).

Pois Jaime acabou sendo mandado embora após abalroar a caminhonete de um hóspede na parede da garagem. Tenho a impressão, porém, de que aquilo não se deveu à bebida e sim ao fato de ele não ir com a cara do dono do veículo. E nunca mais vi Jaime depois que ele foi embora do hotel.

Isso também não deixava de ser curioso: figuras como essa apareciam do nada e de repente estavam ali ao teu lado, bem fardados, passando 8 horas ali, conversando contigo, sobre de tudo um pouco, o que acabava induzindo quase inevitavelmente a uma amizade ou algo próximo disso, e de repente um belo dia eles faziam alguma cagada – ou não faziam nada, o que em alguns casos dava na mesma – e simplesmente iam embora, e você nunca mais os vê, como se eles não existissem “lá fora”, como se eles tivessem existido somente por algum tempo ali dentro do hotel, personagens criados especificamente para aquela trama.

Mas onde, afinal, se enfia esse pessoal de hotel no dia-a-dia? Até hoje procuro por alguns ex-colegas, boas pessoas, grandes amigos, mas nunca mais os encontrei, assim como Jaime... estarão enfurnados em um outro hotel? Não, não creio; depois de conquistarem a liberdade, eles não se submeteriam de novo àquilo... o europeu, por exemplo, havia acabado numa oficina mecânica – e, dizem, feliz, conversando em alemão e francês com suas repimbocas da parafuseta – , embora eu nunca mais o tenha visto.

Fosse como fosse, eu ia ficando lá, e, diabos, acreditando por vezes que eu é que fosse o personagem criado especificamente para aquela trama...

(Continua)


terça-feira, 5 de junho de 2018

"Diário de um Recepcionista de Hotel Canastrão - Parte 7" (por Diego T. Hahn)



Faltando quinze minutos para terminar o turno, o relógio inevitavelmente parava: estacava abruptamente no quinze para as seis da tarde e ali ficávamos para todo o sempre - forever and ever!... ou, bem, ao menos assim parecia.

Tinha um colega mensageiro que olhava para aquele enorme relógio quadrado da recepção e dizia que ali atrás dele devia haver um buraco, onde se escondia um anão, e esse anão filho da puta era quem parava o relógio, só de sacanagem. 

Eu retrucava que não, que devia ser um duende, pois isso é típico dos duendes, você sabe. Eles gostam de sacanear mesmo... 
Gnomo certamente não era; os gnomos, a princípio, são camaradas e tal (embora a Xuxa alegasse ver gnomos, o que talvez também não deponha a favor dessa suposta bondade deles, não é mesmo? Mas enfim)... 
O colega respondeu então que na verdade eles deviam se revezar, deviam ter também eles seus turnos ali, como a gente: quando o tempo passava mais rápido então, devia ser o gnomo ali atrás do relógio; quando mofávamos na recepção, devia ser o duende o encarregado daquela tarde - o anão era o turnante, quebrava o galho quando os outros dois estavam de folga. 

Enfim, essa descrição acima foi só para o amigo leitor ter noção do nível de idiotice que a um certo ponto atingíamos por vezes ali naquele recinto...

Certa vez, em meio a um desses nossos vácuos mentais que infelizmente transformávamos em diálogos, um hóspede, com a cara fechada, chegou em frente ao mensageiro ao lado da recepção e balbuciou, com os dentes cerrados:

- Megane – pedia seu veículo, carrancudo, visivelmente com pressa.

O colega não era muito ligado em marcas de carros e respondeu sorrindo todo simpático, estendendo a mão para o sujeito:

- Prazer, seu Megane. Reinaldo. Posso ajudá-lo?

Pois, noves fora a ignorância automobilística do mensageiro em questão, quanto aos seus Meganes da vida, eu os ficava ouvindo naqueles outros papos vazios (ao menos os nossos eram engraçados...), orgulhosos das vendas que haviam feito no dia, ou trocando ideias do dia a dia das empresas, sobre novos produtos no mercado, ou algo assim, e ria melancolicamente comigo mesmo da pomposidade que muitas vezes alguns deles empregavam àqueles assuntos - práticos e importantes para alguns, sim, sem dúvida, mas, diabos, extremamente maçantes para a humanidade como um todo, caramba!...

E sentia então uma tremenda vontade de indagar-lhes o que achavam que havia após "tudo isso", e o que achavam a respeito de de onde viemos e para onde vamos, e ainda se acreditavam em vida após a morte, e em Deus – ou nos duendes e gnomos, que fosse – e se acreditam em algo – em algo além da empresa, que lhes pagava aquelas diárias ali...

Provavelmente perguntariam também se eu acreditava em algo além da empresa que me pagava para estar ali. 
E eu responderia, categoricamente, que acredito em tudo, MENOS na empresa que me pagava para estar ali – até porque, na verdade, não acreditava naquilo que me pagavam para estar ali... 


Mas, enquanto isso, lá vinha outro desfilando imponente pelo hall do nosso caro Hotel Santa Maria City:

- Como é o Hotel Imembuy? - perguntava-me o velho rabugento, após dizer que estava descontente com a estrutura do nosso hotel, e o atendimento, e...

- Não sei, senhor.

- Como não sabe? Que raios de atendimento é esse?

- Bem... senhor... o caso é que, como o senhor pode supor, eu moro aqui em Santa Maria, certo? Assim sendo, nunca me hospedei no hotel Imembuy... afinal, não preciso; tenho uma casa aqui em Santa Maria... não faria sentido me hospedar no hotel tendo uma casa aqui, correto? E também nunca trabalhei lá, trabalho aqui no Hotel Santa Maria City... portanto, não faço ideia de como é o hotel Imembuy... senhor.

- E por um acaso isso te impede de ter ouvido o que dizem de lá? Trabalhando num hotel, não sabe o que dizem do outro hotel? É isso?

- Ah, sim... já ouvi falar de lá... uma pessoa me disse que é uma porcaria total... outra, me disse que é maravilhoso... lhe ajudei agora??

- Vou falar com o gerente sobre o seu atendimento – vociferou o velhote por fim, dando-me às costas.

Bem, repassando mentalmente o diálogo e toda a racionalidade e lógica extremas empregadas no mesmo, supus que aquilo só podia ser um elogio.

Um outro desses sujeitos, após fazer o check-in, subiu ao andar do seu quarto e logo telefonou lá de cima e começou a resmungar, dizendo que ia embora, pois não era nada do que “tinham lhe prometido” - veja bem, apesar dos chororôs desses malas reclamões, o hotel era considerado o melhor da cidade, um bem ajeitado 4 estrelas...

Respondi simplesmente “ok” e desliguei.

Ele desceu, veio até a recepção e repetiu toda aquela sua ladainha chorosa, por fim ameaçando novamente que ia embora.

Repeti, educadamente, mas sem maiores delongas: “Ok”.

Ele ficou me olhando. Esperava certamente, eu via em seu olhar, que eu replicasse dizendo que o acomodaríamos em um outro quarto, faríamos o nosso melhor, ou ao menos que eu perguntasse QUAL era o problema mesmo; devia estar acostumado com hotéis, e suporia que essas deviam ser as instruções dadas no treinamento (lembrando que o meu "treinamento" fora na madruga, com o mensageiro-cozinheiro-violeiro-meu-filho-no-videogame Zeca) e... ficou me olhando. E eu, para ele. 

Atônito, depois de alguns segundos então, foi-se embora devagarzinho arrastando sua bagabem, de vez em quando ainda dando uma olhadela entre surpresa e incomodada para trás antes de passar pela porta automática da saída, certamente desolado por inesperadamente ter que recomeçar mesmo sua busca por um quarto de hotel (talvez fosse acabar parando no muquifo do Hotel Imembuy, que era uma verdadeira bosta, embora eu eticamente me recusasse a mencionar isso para o desgraçado anterior) como não imaginava que pudesse acontecer quando lá de cima ameaçou partir e, especialmente, por não ter sido paparicado por aquele maldito recepcionista sem coração.

Certa vez me ocorreu, no entanto, o terrível pensamento que fora dali também eu talvez agisse como alguns daqueles hóspedes em certas ocasiões. Quando no papel do cliente, em um restaurante, uma lancheria, ou algo assim... 

Vi-me entrando no lugar, todo cheio de banca, fazendo pose para a garota ao meu lado, analisando o cardápio, enquanto o garçom ali ao lado, já cansado de esperar pelos idiotas que não se decidem nunca o que querem comer, começa a tecer teorias a meu respeito, imaginando-me um completo imbecil que se acha superior a ele por estar ali sentado... e aí fico em dúvida se tomo um refri normal ou um refri zero... decido por fim que não, quero uma água... ou melhor; uma cerveja. Isso, uma cerveja. Duas. Três. Quatro. E logo estou bêbado e bravateando, fazendo piadinhas sem graça, para as quais ele tem que retribuir com um sorriso amarelo, e fico lá sentado quando todo mundo já foi embora e os funcionários só aguardam por mim para irem embora, completamente destruídos pela infinita jornada diária...

Sim, tenho auto-crítica, porra: sei que também sou uma espécie de hóspede pedante em certas ocasiões (de acordo com a teoria sociológica de um ex-colega, esse é um problema crônico do brasileiro como um todo: por mais pobretão que seja, se estiver pagando, ele acredita que pode tudo...). Mas isso não me fez ser mais condescendente; não, isso me fez ser ainda mais crítico com eles (os malditos hóspedes) – e também comigo mesmo; passei a procurar tratar os garçons como o Seu João de Almeida me tratava (um dia desses, por sinal, depois de uns tragos solitários num boteco, convidei mesmo um deles para acompanhar numa expedição até as queridas... não estou evoluindo?).

Um cara que trabalhou ali na recepção por breve período, cerca de três meses, havia trabalhado anteriormente por algum tempo em cruzeiros turísticos e em hotéis pela Europa. Disse que lá essa questão do atendimento era mais tranquila: os hóspedes não ficavam pedindo mil coisas, não achavam que tinham direito a tudo (ele é o cara daquela teoria que eu mencionara antes); simplesmente entravam no hotel, dormiam, tomavam café, no máximo pediam alguma informação da cidade, e caíam fora... e se pedissem muito, na realidade, o pessoal do hotel já dizia que não, não tinha, não, não era possível, e já fechava a cara, no que, devo dizer, identifiquei-me com esse tipo de tratamento.

O problema era exatamente, continuava ele, quando surgiam brasileiros... era um inferno. A princípio, ele ficava contente de ver patrícios chegando lá e poder trocar uma ideia com pessoal da sua terra natal, mas com o tempo foi percebendo essa faceta pedante dos turistas brazucas... havia muitas situações que o pessoal do hotel até quebrava um galho, mas no caso era mesmo um favor, não coisas que estariam incluídas no serviço, embora esses hóspedes acreditassem que sim, que tinham direito a absolutamente tudo que solicitassem. “Novos ricos”, dizia ele. Querem exercer esse seu novo poder – e precisam, por conseguinte, de alguém para sofrê-lo – completava ele sua análise sociológica.

E agora aquele sujeito estava ali, trabalhando num hotel no Brasil. Cercado, pois, de hóspedes brasileiros por toda parte! Gente pedindo adaptador pro carregador de bateria do celular ou do computador, pedindo mais coberta, pedindo mais travesseiros, pedindo para ir ver o ar que parece não estar funcionando direito – está muito quente; ou muito frio; ou ambos - , pedindo para dar uma olhada na televisão, a imagem está meio ruim, e o controle remoto também parece não estar funcionando direito, e como me colocaram num quarto de frente para a rua?? Vocês estão loucos?? Ah, não, nos fundos também não, né!?... a vista lá é péssima... e no meio, no meio nem pensar: aquele barulho enlouquecedor do elevador a toda hora!!...

E tudo aquilo por menos de um mísero salário (várias vezes, quando conversávamos e pedia que eles chutassem o valor do nosso ganho mensal, ouvi de hóspedes o palpite que aqueles carinhas dentro daquele hotel chiquezão, fardados de terno e gravata, tiravam, no mínimo, uns 2 paus limpos por mês. ) - de nada valendo também ali toda sua experiência lá fora e as 3 ou 4 línguas estrangeiras que falava...

Alguns meses depois, após ficarmos um tempo sem notícias suas após ele (obviamente) deixar o hotel, soubemos que o colega europeu estava trabalhando numa oficina mecânica a algumas quadras dali – e Jorge, o mensageiro, afirmava quase não tê-lo reconhecido ao vê-lo de relance, devido ao rosto todo sujo, mas que debaixo de toda aquela graxa havia um sereno semblante de quem, apesar de não ter mais o prazer de correr mundo servindo drinques em navios bacanas para formosas e simpáticas suequinhas, por outro lado, entre uma repimboca da parafuseta e outra que aparafusava e com as quais dialogava sussurrando em francês ou alemão, encontrara um pouco de paz de espírito nos últimos tempos, por simplesmente também não precisar mais aturar os famigerados hóspedes tupiniquins...

(Continua)


terça-feira, 15 de maio de 2018

"Diário de um Recepcionista de Hotel Canastrão - Parte 6" (por Diego T. Hahn)


O telefone.

O telefone era um capítulo à parte.

Se por um lado na madrugada ele permanecia quase invariavelmente mudo, à tarde ele tocava freneticamente, incessantemente – era um negócio realmente enlouquecedor!

E o pior: na verdade, eram dois telefones!, separados por uns três ou quatro metros na parte interna do balcão da recepção...

A coisa costumava se desenrolar assim: eu atendia um, falava com o interlocutor, desligava, e ia pegar o outro que já estava tocando, enquanto o anterior já começava a berrar novamente, e o gerente gritava perguntando por que ninguém atendia o maldito telefone, e eu não podia responder pois estava exatamente atendendo ao telefone, seu *#%#@¨*!... E por aí íamos, ao longo da tarde, naquela infinita sequência digna de um filme de comédia pastelão – eu podia me imaginar mesmo como um Didi Mocó da vida real, quase conseguindo, por um milésimo de segundo, rir da idéia em meio à raivosa corrida de um telefone para o outro (nos piores cenários, ainda havia algum hóspede maldito por ali me perguntando coisas simultaneamente, quando não uma pequena fila deles se formando e me olhando feio por eu dar atenção aos telefones e não atendê-los direito, ou novamente o maldito gerente, enquanto eu decidia ignorar os telefones e atender razoavelmente os clientes – o que me parecia o mais lógico -, também ele resolvia usar o telefone na linha interna e me telefonar para perguntar por que eu não estava atendendo os malditos telefones!!)...

Foi então uma bela tarde que comecei a colocar em prática uma técnica anti-stress-telefônico

Primeiramente começara a acontecer de eu simplesmente esquecer com relativa frequência os aparelhos fora do gancho...

Eu sei, você pode pensar que isso era proposital, que essa então era a tal técnica, que - além de canalha - não tinha nada de original, e eu lhe responderia que, fosse como fosse, se fosse verdade que esta era a técnica empregada voluntariamente, ela era simples, realmente, mas também eficaz, pois os aparelhos ficavam ali relaxados por uns cinco ou dez minutos antes de eu me dar conta do lapso, o suficiente para voltar a ouvir meus pensamentos e descansar a mandíbula, cansada de se abrir e fechar em meio ao “Bom dia, Hotel Santa Maria, em que posso ajudá-lo?” que repetia 896 vezes por tarde. 
Mas não, como dito antes, aquilo era puro esquecimento, cara.

Agora, a técnica em si, sim, consistia em efetivamente atender a uma chamada – e  eis o toque de gênio: ficar esticando ao máximo a conversa com o interlocutor, explicando-lhe, com minúcias, ainda que não tivesse sido perguntado, características do hotel, a localização deste, o que estava incluído na diária, as “atrações turísticas” da cidade, como chegar, etc. Fazendo isso, obviamente eu não deixava de ter que abrir a boca e falar (dessa, não adiantava, não havia técnica ou milagre que me fizesse escapar), mas, além de não correr o risco de ser flagrado no esquecimento do telefone fora do gancho (cena que poderia ser estarrecedora tal qual a do chuveiro de "Psicose" para o gerente ou, pior, para o dono da budega, com direito à musiquinha de suspense - TÃ TÃ TÃ TÃ TÃ!! - e um close no fone fora do gancho como se fosse uma faca ensanguentada, chegava a visualizar eu num daqueles meus momentos de paz telefônica), ao menos eu não precisava correr de um aparelho para o outro, e podia falar com toda calma do mundo sobre algumas questões um pouco mais diversas do que aquela enlouquecedora introdução, com suas repetitivas saudação e as duas ou três informações mais básicas, que devem ter me feito perder uns oitocentos e setenta e sete milhões de neurônios por suicídio (ou, neuronicídio) por tarde de telefonemas.

Em alguns casos, então, flagrei-me mesmo conversando sobre política, futebol e religião com as pessoas do outro lado da linha que haviam telefonado para simplesmente saber se havia vagas e o preço dos quartos.

 Mas, calma, como obviamente nem todos do outro lado da linha tinham paciência, a técnica foi refinada, e a deixei ainda mais artística: pois mesmo depois de a pessoa com quem falava ter desligado eu continuava muitas vezes conversando, calmamente, passando várias informações que esse hipotético futuro cliente estaria pedindo – e ele queria saber, claro, além da localização do hotel e se ficava perto do centro, quando havia sido construído, que atrativos havia no entorno, como era a vida noturna da cidade, que bar eu recomendaria para uma festinha legal, que tipo de som tocava lá, que tipo de som eu curtia, qual era o meu time, o que eu havia achado da rodada do fim de semana, o que estava passando no cinema da cidade, se eu havia visto o filme tal, o que havia achado (aproveitava para me fantasiar famoso, estirado num sofazão, num daqueles ping-pongs com Marílias Gabrielas e Jô Soares da vida) etc – e em outros momentos, para realmente descansar, simplesmente concordando com o velho e bom “hum-rum” a indagações feitas por seres imaginários do outro lado da linha, no melhor estilo poltergeist.

O outro telefone, obviamente, berrava insanamente durante aqueles dez minutos que eu ficava ali naquela conversa com o além, e o gerente, embora ainda consternado com o aparelho que tocava, me observava e devia pensar “caramba, não levava muita fé, mas o cara até que é mesmo um funcionário prestativo; não se furtando a dar diversas informações, algumas, aliás, que não têm nada a ver com o trabalho dele, na maior paciência, para algum filho da puta cheio de nove horas!...”.

É, é verdade: eu merecia mesmo era um aumento por aquela paciência, meu amigo.

Mas, falando em gerente e paciência, curiosa também era a organização dos nossos turnos na recepção por parte do tal: às vezes não havia realmente porra nenhuma para se fazer e estávamos lá eu e outro recepcionista batendo cabeça na “jaula”; em outros momentos, como no supracitado, eu, solitário, me desabalava de um lado para o outro para atender aos telefones e ao mesmo tempo fazer check-ins e lançamentos de produtos consumidos nas contas e responder a perguntas idiotas de hóspedes desagradáveis e, como se sabe, nessas horas sempre surgem mais coisas para fazer... por vezes ficava então tentando imaginar o sujeito organizando os tais turnos (e aqui novamente entrava numa daquelas minhas viagens, visualizando mesmo o cara enfurnado em sua salinha privada - ou talvez realizasse aquele afazer realmente nesta última, isto é, no vaso - rindo maquiavelicamente em frente ao excel com nossos nomes sendo jogados, por puro prazer sádico, de lá pra cá naqueles retangulozinhos, sem um mínimo de lógica aparente...). 
Enfim, o fato é que o indivíduo estava lá há longos meses, logo anos, sabia a rotina do hotel, dos horários, fluxos de movimento; como, ainda assim, conseguia organizar os turnos de maneira tão estúpida, meu Deus?...

Nesses casos, vez em quando - digamos que "em protesto" - quando estávamos em dois recepcionistas e dois mensageiros ao lado, teoricamente em serviço, mas todos coçando violentamente, fazíamos um revezamento recreativo: um dos recepcionistas e um dos mensageiros ficavam de “plantão”, justificando o contracheque recebido - afinal, fazer o quê, né - , enquanto os outros dois pegavam o carrão de algum hóspede na garagem, tipo um Camaro ou uma BMW, e iam dar uma banda pela cidade, aproveitando, óbvio, para dar uma flertada com algumas gatinhas pela rua... 

Certa vez, por exemplo, o mensageiro Jorge, aquele que dizia que eu parecia um espião, parou o carro pelo centro e começou a papear com uma garota que andava por ali. Ela sorriu. 
Pois papo vai, papo vem, ele contou que era médico, pápápá, e trocaram telefones... alguns dias depois, chegaram a sair juntos para uma cervejinha e ele contando das cirurgias de transplante de coração que costumava fazer, não era fácil, mas era recompensador, sabe... e os olhos da menina brilhavam...

Nos dias seguintes, entre um carro manobrado e outro, o camarada se demonstrava empolgado quando pela recepção, contando sem parar da sua nova conquista, sem se importar de ser sacaneado pelos colegas, que diziam que ele estava ficando apaixonadinho.

Difícil para ela, no entanto, deve ter sido compreender a cena que viu quando certa vez passava por acaso em frente ao hotel: lá estava o “doutor” na rampa da garagem, de uniforme do hotel todo suado e carregando as malas de algum hóspede recém chegado e que lhe dava um tremendo esporro por um motivo qualquer e ele só balbuciava “sim, senhor, sim, senhor...”.

Depois disso, apesar do óbvio fim do romance e da nossa apreensão pela provável queda no astral do colega, surpreendentemente, entre suas missões pela garagem, ele continuaria vindo à recepção com frequência empolgadamente redobrada para conferir no computador detalhes sobre operações de ponte de safena, procedimentos como cateterismo e coisas do gênero, mostrando que, por mais platônico que talvez fosse, parecia realmente ter encontrado um novo amor nessa vida.


(Continua)

quinta-feira, 3 de maio de 2018

"Diário de um Recepcionista de Hotel Canastrão - Parte 5" (Por Diego T. Hahn)



- Mas eu disse para não tocarem no meu carro!

- Sim, senhor; mas o senhor quis estacionar por conta própria e acabou ocupando a vaga de dois veículos... e, como o hotel está lotado, nós tivemos que remanejá-lo e...

- Não me interessa. Eu disse para NÃO MEXER no meu carro!

- Certo, então o senhor terá que deixar seu automóvel na rua...

- Como é???

Eu falava ponderadamente, sem alterar a voz, com o sujeito, que, por sua vez, bradava e gesticulava tal qual um chimpanzé envenenado, aparentemente cada vez mais irritado com a minha argumentação, mas eu não podia deixar pra lá, ainda que a treta a princípio não fosse minha – ele havia começado aquele esporro para cima do mensageiro, que era quem havia manobrado o carro dele e que agora ali na recepção baixara a cabeça, encabulado, após até tentar explicar que “é que... senhor... eu... hã... o carro... tinha que...”, mas diante da pressão do cara não conseguira articular nada.

Cara, a questão é que, em situações assim, eu sentia-me na obrigação de contra-atacar.

Se a bronca era diretamente comigo, eventualmente eu até deixava passar, mas algumas vezes os hóspedes abusavam moralmente de alguns dos meus colegas que não tinham as “ferramentas”, ou mesmo disposição, para defender-se e confrontá-los adequadamente (ou o que eu julgava ser adequadamente), como eu aparentemente tinha (ou acreditava ter)... mas a verdade é que, de certa forma, poder-se-ia dizer que no fundo, numa conotação social e/ou intelectual, eu talvez pertencesse mesmo também à “tribo” dos hóspedes, embora estivesse apartado deles por um balcão - era como um membro deslocado do bando - , e, embora me entendesse bem com eles, era um "estranho no ninho" entre meus colegas, os “bárbaros”, como o próprio mensageiro Jorge costumava brincar, dizendo que eu parecia uma espécie de espião, fingindo-me inocente ali na recepção em meio àqueles check-ins e check-outs, enquanto preparava algum grande plano maquiavélico para conquistar o mundo ou algo assim...

Bem, não, não havia plano algum – não além daquele de simplesmente conquistar era o meu troquinho – mas devido àquela “pilha” toda – e a maior carga dela, confesso, vinha de mim mesmo – eu realmente acreditava ter aquela obrigação de ao menos lhes infligir, aos malditos hóspedes, derrotas supostamente (ao menos nas minhas utópicas suposições, quando criava um filme na minha cabeça) épicas, tal qual o fizeram – ou ao menos tentaram – os personagens do De Niro em “A missão”, do Tom Cruise em “O último samurai”, ou o do Kevin Costner em “Dança com lobos”... 
Quase todos eles se deram mal, é verdade, provavelmente eu também me daria, mas, que diabos, como bom camarada não podia fugir àquela luta!...

Fosse como fosse, e por mais que o confrontasse, o tal palhaço continuou estacionando o carro sozinho e ocupando espaço que poderia ser usado por outros carros e causando confusão na garagem, mas ao menos, como consolo, o dono do hotel, que acompanhava de longe a discussão, veio até mim na recepção depois que o cara se foi e, ao que eu esperava um esporro complementar (ou mesmo um golpe de misericórdia), me surpreendeu dizendo apenas: “Nem dá trela; o cara é um babaca mesmo...”, mostrando que o sujeito devia ser realmente um tremendo babaca.

Voltando às origens, quando pelo contrário raramente tinha contatos do gênero – na verdade, quase nenhum contato em geral – e tudo era mais tranquilo, logo no meu primeiro mês no hotel já me tinham colocado para trabalhar na madruga e foi na calada da noite que conheci o sorrateiro Zeca. Ele era então o mensageiro mais antigo lá depois do Severo e sabia tudo do hotel. Sabia, por exemplo – mostrando que conhecimento também enche mesmo barriga – , onde ficava guardada na noite a chave da cozinha do restaurante – local sagrado e de acesso supostamente proibido para nós. E lá pelas tantas, balançando-a entre os dedos, vinha até mim e perguntava:

- E aí, o que vai querer para hoje, véio?...

Eu, então meio constrangido – novato, ainda em fase de teste, não querendo entrar de cúmplice naquele ataque à despensa, mas também não querendo descartar completamente uma oportunidade de preencher o vazio do buraco negro que costumava assolar meu estômago naquelas ocasiões – , dizia que não sabia, até tentava desconversar, dizendo que "estava tranquilo" (numa tímida e duvidosa recusa), enquanto seguia teclando algo no computador sem sequer olhar pro cara... ele, porém, não se fazia de rogado e dava então as sugestões do dia – ou melhor, da noite:

- Batata frita, lasanha ou omelete? – e lá se ia preparar nossa janta das três horas, sem esperar eu responder. Voltava com uma latinha de refri pra cada um. 

O sujeito era mesmo um grande fanfarrão. Volta e meia levava consigo também uma viola, com a qual alegrava parte das nossas madrugas, e por vezes também um videogame. Nessas noites, o tempo voava. Ficávamos jogando futebol, estirados no sofá, na sala em frente ao bar, onde havia uma telona, e eu pensava “bem, daqui a pouco faço as duas ou três coisas que tenho para fazer”, que me tomavam menos de meia hora naquelas madrugadas, e aí quando nos dávamos conta, caramba, eram já cinco e meia! – o turno trocava às seis – e saltávamos do sofá e eu ia correndo imprimir os arquivos que tinha para imprimir e carimbar os arquivos que tinha para carimbar e tal, e ele zarpava para garagem ajeitar os carros... é, aquelas partidas eram duras e acirradas! Concentrados, perdíamos totalmente a noção do tempo. 
Mas o que importa é que, apesar de Zeca ser o dono do campinho – o videogame era dele – eu ganhava a maioria das partidas, para seu desespero – eu ria sarcasticamente ao ouvir com frequência o mensageiro que estava assumindo o turno no início da manhã perguntando para o meu rival “Por que essa cara de bunda hoje, mano?”...

Zeca não durou muito lá, depois que eu entrei. Não por revolta pelas derrotas, mas logo arranjou um emprego melhor e eu perdi meu cozinheiro noturno – e o companheiro de viola, e as partidas de futebol no videogame... O mensageiro que o substituiu não tinha a mesma audácia, e na verdade nenhum outro depois dele, ao passo que a partir dali tive que procurar outros entretenimentos para aquelas longas noites nas quais, posso jurar, ainda chegava a farejar por vezes feito um cão faminto ao longo dos meses seguintes o cheiro de lasanha ou omelete se aprochegando nas imediações da recepção ali pelas três da madruga - logo no entanto tornando à realidade e melancolicamente voltando a mastigar minha pastelina e sugar meu toddyinho então levados de casa.

(Continua)


quinta-feira, 12 de abril de 2018

"Diário de um recepcionista de hotel canastrão - Parte 4" (Por Diego T. Hahn)


O proprietário do hotel era um coroa, na casa dos sessenta e alguma coisa, mas meio judiado, representando mais (embora talvez tivesse até menos), gordo, e não de muitas palavras, que aparecia lá de vez em quando na recepção, perguntava a respeito da taxa de ocupação ou algo assim e desaparecia, provavelmente voltando para seu escritório para contar o vil metal que entrava abundantemente em caixa (e obviamente não respingando nada desse excedente para a gente...).

Soa como um clichê, sei, da imagem que o revoltado proletário costuma ter do "capitalista", mas, diabos, ele parecia realmente só se importar com aquilo: encher os bolsos com sua infinita bufunfa, pois passava os dias enclausurado naquele hotel, da manhã à noite; acredito que não tinha grandes diversões na vida, não praticava um esporte, não costumava sair para jantar – comia quase sempre no restaurante do hotel mesmo – ou beber com amigos... enfim... aquilo me incomodava – por ele, veja bem; pelo "desperdício" que eu via naquele quadro – mas, que fosse, o que me importava mesmo, no fim das contas, é que ao menos ele não me enchia o saco ali. 
Por mim, então, podia seguir com sua vida sedentária e antissocial, enchendo o rabo de grana, desde que não atrapalhasse minhas sessões de pornô ali no pc da recepção...

Ele só parecia não gostar muito realmente, não sei bem por quê, quando eu começava a conversar demais com os hóspedes.
Sei que não apreciava nem um pouco quando eu enveredava, por exemplo, pelo terreno da política, mas aí eu até entendo, já que, como bom canhoto, sempre pendi para a esquerda, ao passo que, como já dito e creio que bem ilustrado, ele era um tradicional burguesão.

 Mas, diretamente, ao menos, ele não vinha nunca me dizer nada, só olhava meio enviesado de longe; quem chegava junto era o gerente (ou, "o capachão", como o chamávamos pelas costas), dizendo coisas como “tu é pago pra fazer check-in e check-out e não pra resolver os problemas do mundo, seu Marco...”.

Ok, por vezes eu travava mesmo ferozes duelos verbais com os clientes ali na recepção – discutíamos sempre educadamente, mas por vezes num tom um pouco mais alto e enfático, enquanto a fila do check-in crescia e os clientes que aguardavam para serem atendidos faziam cara feia, como ficava também a do capo, que mandava então o capa (sim, nos referíamos aos dois assim: o capo ("chefe", em italiano, segundo um colega nosso que sacava das línguas estrangeiras) e o capa (de capacho mesmo)) vir falar comigo, fazendo todos os olhares do arredor voltarem-se para a gente, mesmo os daqueles hóspedes que estavam alheios à conversa, que só estavam coçando ali pelo hall de entrada, lendo um jornal, esperando seu carro ou algo assim, alguns se mostravam então até meio espantados, provavelmente com a ousadia daquele carinha atrás do balcão ali, um ignorante qualquer, querendo saber mais que gente culta e estudada como aqueles caras que ali se hospedavam; quem ele pensava que era?... 

Não raras vezes, porém, foram aqueles com quem respeitosamente bati (de frente) e debati (questões um tanto quanto polêmicas) que se despediram efusivamente de mim ao partirem, deixando-me além de tudo, como bons burgueses, uma boa gorja (ao passo que eu, como bom socialista, aceitava de bom grado essa contribuição para meu, digamos, “fundo revolucionário”)...

Certa vez, por exemplo, apareceu um militar americano no hotel e começamos a conversar, a princípio, sobre assuntos amenos na recepção. 
Lá pelas tantas, no entanto, estávamos a altos brados, eu batendo nos states por sua política externa, seu militarismo, seu imperialismo, blá blá blá, e o cara, que estava lá para um intercâmbio com o Exército Brasileiro, republicano, rebatia com o clássico discurso protocolar de que eles só queriam exportar sua democracia e tal...

Caramba, acho que nunca vi o dono do hotel me olhar tão feio como aquela vez.

No seu check-out alguns dias depois, porém, o americano me deu um longo aperto de mão e me deixou nada menos que vinte dólares de tip (Oh, yeah: God bless America, man!)...

Ah, sim, os jornais: a propósito de "acesso à informação", a princípio os jornais do dia eram deixados em um canto discreto sobre o balcão da recepção. Pois quando não havia muito o que fazer eu dedicava-me a me informar sobre os acontecimentos do mundo, lendo-os um por um. 

A direção não gostava daquilo. 

Assim, eu procurava ler quando eles não estavam por ali, mas, ainda que largasse os diários e voltasse ao meu computador como se estivesse fazendo algo muito importante quando era flagrado no ato, logo decidiram tirar os jornais daquele local e passaram a jogá-los sobre uma mesinha do hall de entrada.

Decisão acertada, ao meu ver, por ser um lugar realmente mais propício para os hóspedes terem acesso a eles, ainda que não fosse por esse motivo que os tivessem tirado do balcão da recepção; não, tiraram-nos dali simplesmente para que nós, recepcionistas, não pudéssemos lê-los mais. 
Não ficava bem, você entende: o recepcionista, ainda que não tivesse porra nenhuma para fazer, ficar lendo jornais... onde já se viu? O desgraçado devia era ficar ali, parado, imóvel - e sempre de pé, feito um elegante puro sangue, pois não tínhamos também sequer uma cadeira, um banquinho, nada, para escorarmos por alguns instantes que fosse naquelas seis (por vezes aparentemente infinitas) horas ali, independente dos eventuais ócio e solidão momentâneos no saguão de entrada - , bem vestido, bem alinhado, sem fazer nada, sem ler nada, sem conversar também – sim, parado e calado, pois, a não ser sobre o estritamente necessário para o trabalho, não devíamos conversar com os mensageiros, mesmo que estivéssemos só nós dois ali, devíamos ficar em silêncio, militarmente olhando para o horizonte... seeeeeennn-TIDO!!

Porra! É sério, cara... Mas, que diabos, sinto muito, mas não, eles não conseguiriam conter minha sanha de informação...
Pois nessa nossa nova era tecnológica - embora àquela época ainda não tivéssemos os famigerados smartphones e o diabo a quatro - obviamente bastava eu entrar no computador e ler as mesmas notícias em versão on-line. 
Ha ha!... Assim, por mais que não quisessem, eu me mantinha razoavelmente informado.

É isso aí, meus amigos: querendo ou não, pois, eles teriam um maldito recepcionista que lia (sim, livros também!), relativamente bem inteirado dos assuntos do mundo, e pronto para dialogar sobre quase qualquer coisa com os preciosos hóspedes deles.

(Continua)

quarta-feira, 14 de março de 2018

"Diário de um Recepcionista de Hotel Canastrão - Parte 3" (por Diego T. Hahn)


Carlos Silva é representante de alguma empresazinha aí e se acha uma grande peça do tabuleiro! 
O pior é que vejo dezenas assim todos os dias. Há também os empresários de meia tigela que se acham os novos Eikes Batistas ou Abilios Dinizes, mas não passam de uns presunçosos pés rapados de espírito (talvez só tenham mesmo do primeiro o instinto de subir a qualquer custo e só não estejam também enrolados com alguma lava-jato da vida porque não têm sequer a “competência” de chegar a um nível tão alto de malandragem)... 
É uma alegria quando aparece, por exemplo, um seu Antônio da vida, ou um João de Almeida.

João de Almeida é representante também de uma empresa de sei lá eu o quê – porque na verdade nunca dou muita bola para com o que ou para quem trabalham, só fico às vezes sabendo pelos meus colegas que se atêm muito a esses detalhes e costumam referir-se a eles por “o Carlos Silva da Petrobras” ou algo assim – , mas é um sujeito gente boa, de bem com a vida, que tá sempre batendo um papo informal e interessante ali pela recepção.

- E aí, seu Marco? Tudo beleza? E a mulherada?

- Ah, seu João, o senhor sabe como é... sempre prestigiando as beldades, né!? Porque não dá pra parar...

- Mas sai daí, guri; tu tem cara é de matador de dragão! Mas, bueno, um dia desses temos que ir juntos numa casa de diversão aí... tu que sabe das coisas vai me mostrar onde é o lugar bom aí da cidade...

- Claro, com o maior prazer.

Grande pessoa o seu João de Almeida. Não tá nem aí pra nada. Só quer saber de cumprir o horário dele e depois sair para algum bar para espairecer. Costuma voltar no meio da madruga meio torto. Como sou turnante – como explicado no capítulo anterior, dependendo do dia posso trabalhar de manhã, de tarde, de noite, ou na madrugada – acompanho bem os hábitos e horários de alguns hóspedes e cruzo com eles em diferentes momentos do dia, ao que sempre me largam aquela:

- Mas tu por aqui ainda? Tu dorme aqui, é??...

E a verdade era que sim, eu dormia mesmo lá. Isto é, eu morava no apê dos coroas, que ficava perto dali, mas dormia de vez em quando ali no hotel também – e não, não me refiro aos horários nos quais estava de folga; mas durante o maldito expediente mesmo: na madrugada, quando estava deveras cansado, costumava desligar as portas automáticas da entrada e me jogar em algum sofá do hall de entrada e dormir feito um anjo, deixando o mensageiro encarregado de me avisar se algo acontecesse.

No entanto, não foi uma nem duas vezes que, depois de um tempo de sono, acordei com um barulho de pancadas em vidro e notei o colega também apagado roncando em um outro sofá, enquanto lá fora, visivelmente irritado, algum hóspede batia incessantemente na porta, querendo entrar. E lá ia eu rastejando enquanto calçava os sapatos, gravata torta e cara toda amassada com listras de sofá na bochecha e na testa, forjando o mais próximo de um sorriso que eu conseguia naquela madrugada e, enquanto na passada dava um soco no mensageiro ainda em coma, abrindo a porta para o sujeito, saudando-o e fazendo algum comentário amigável tipo “Ué, voltando cedo hoje!... Não rendeu a noite?”. E percebia então aqueles grandiosos homens de negócios, emburrados, indo se recolher, com a visível sensação de fracasso, às suas celas, o que deixava aquele reles proletário da calada da noite um pouco menos chateado de ter seu precioso sono repentinamente interrompido.

Já nos turnos da manhã, quando não havia a possibilidade da soneca, eu procurava me encher do cafezinho preto que havia à disposição – teoricamente dos hóspedes – na recepção para sobreviver ao batente, e preencher os imensos vazios de movimento trocando uma ideia com Severo, aquele meu colega jurássico, que costumava vir frequentemente até a recepção conversar comigo, tendo como assunto favorito a proposta de alguma “sociedade” entre nós, para cairmos fora do hotel e montarmos juntos um negócio. Às vezes ele sugeria uma lanchonete ou um bar, às vezes uma quadra de futebol, e ia alternando as ideias, repetindo algumas ao longo dos dias, e sempre nos empolgávamos quando começávamos a ir mais fundo naqueles devaneios, imaginando os detalhes desse nosso futuro business, e eu percebia os olhos do velho Seva brilharem como os de uma criança diante da promessa da bicicleta que seria trazida pelo Bom Velhinho no próximo dezembro.

No fundo, eu duvidava que ele fosse realmente sair dali um dia, o que me fazia às vezes pensar que talvez eu não devesse dar tanta corda, para evitar alguma possível desilusão para o sujeito mais adiante, mas, enfim, não seria eu a destruir aqueles seus sonhos, não é mesmo?, e a verdade é que eu também acabava por vezes me empolgando com aquelas ideias, embora não as visualizasse efetivamente se consolidando no horizonte. E, de qualquer forma, também percebia que aquilo parecia bastar para Severo, aquele nosso papo ali, eu lhe dando trela, considerando-o realmente um potencial grande homem de negócios...

- Fechado! – enquanto os representantes e empresários de verdade faziam o check-out após pagarem sua “fiança” e iam-se embora, apertávamos as mãos de maneira efusiva quase semanalmente, sacramentando então o “contrato” de nosso novo futuro business, que por sua vez provavelmente nunca deixaria mesmo as fronteiras daquela recepção de hotel.

(Continua)